5.5.09

fantasmagoria

terça-feira, 18:06 – 18:35

ghosts

fantasmas me perseguem diariamente há anos. me dei conta partindo do hábito estranho e antigo de conversar sozinho em voz baixa. eles geralmente se travestem de pessoas que conheço, repetindo fatos que sempre temi, como nos sonhos. eu respondo às provocações, e quando percebo já é tarde, estou a falar em silêncio com o nada. das outras vezes que falo sozinho, quando não é duelo contra assombração, vejo-me elaborando em torno de alguma idéia ou pensamento já conhecido para um ouvinte inexistente. essa prática colateral serviu como um treino para apresentações orais que fiz para pessoas de verdade.

recentemente eu tentei calar os fantasmas, buscando a consciência necessária para percebê-los logo quando os ouço, e finalmente ignorá-los. isso nunca vai eliminá-los, mas disto já estou convencido: o máximo que dá é aprender a conviver com eles. o que busco para minha saúde mental é esse estado de vigilância permanente, para que não me perturbem naquelas horas que me são as mais importantes.

14.3.09

ensaios para um novo mundo (8b)

sábado, 20:21 – 21:07

hanon4243

nesse meio tempo, percebi que o estudo de uma série de acordes gerou alguns resultados no mundo da improvisação. no método de C. L. Hanon, os exercícios 42 e 43 são referidos como sendo de extensão dos dedos das mãos. a idéia é simples. ele pegou dois acordes de sétima, a saber, o acorde de sétima diminuta e o de sétima dominante, e manda o aluno executá-los em movimento paralelo sobre algumas oitavas. é um clássico arpejo de 4 notas.

os efeitos desse exercícios são muitos, mas o que eu não previ é que ele reforça uma imagem psicomotora desses acordes no sistema nervoso, como se fosse uma memória fotográfica da fôrma do movimento que deve ser realizado para a sua correta execução. logo percebi que eu deveria também acrescentar outros tipos de acordes, e assim sendo, passei a realizar o exercício com as tétrades formadas sobre todos os graus das escalas maior e menor harmônica (a menor melódica tem as mesma tétrades), entre outros. a lista de acordes que passei a estudar contém os seguintes acordes:

diminuto: o
meio-diminuto: ø ou m7(b5)
dominante: 7
maior com sétima: 7M
menor com sétima: m7
maior aumentado com sétima maior: 7M(#5)
menor com sétima maior: m7M
sétima com quarta suspensa: 7sus4

como resultado, percebi que era possível executar algo que soasse como música no piano fazendo uma espécie de dança sobre esses acordes arpejados, inventando alguma melodia junto. eu não conseguia fazer isso antes. eu não tinha uma estrutura psicomotora desenvolvida a ponto de poder olhar para o teclado e enxergar esses acordes e seus desenhos. a prática desse exercício conceitualmente muito simples contribuiu para que essa lente fosse polida, e para que algo pudesse ser visto através dela.

a esse tipo de experiência musical que eventualmente resulta em algumas frases musicais eu denominei de improvisação livre, e na minha percepção, ela só é interessante em solo, sem qualquer tipo de acompanhamento. não é bem aquela mesma improvisação que ouvimos no jazz, onde geralmente há um contexto harmônico já conhecido previamente pelos músicos, servindo como ponto comum. embora há casos em que todos improvisam juntos sobre esse contexto harmônico, a improvisação livre que tento conceituar é uma improvisação na qual não se sabe previamente sequer o contexto harmônico. seria impraticável fazer uma improvisação simultânea ou uma sessão jam com outros músicos porque os acordes por que vou passando ao tocar não são conhecidos previamente. por isso que só funciona solo: porque o outro músico não tem como adivinhar que caminho harmônico eu seguirei.

no contexto da música vertical (que seria pensar o todo como melodia + harmonia), a improvisação livre parece inviável em conjunto. de repente em uma abordagem mais horizontal, com vozes múltiplas contraponteadas, ainda seja possível tirar-se alguma coisa de musical dessa improvisação livre, pois há um mínimo tempo para o segundo músico identificar a harmonia trazida pelo primeiro. mas é só uma hipótese que não irei testar nem insistir tão cedo.

28.11.08

ensaios para um novo mundo (8a)

sexta-feira, 21:18 – 22:38

headblow

quero crer que há um sem-número de acepções para o verbete improvisação, passando tanto pela decrépita gambiarra como pelo difícil ordenamento do difuso em tempo real.

já nos ensaios 2, mencionei Victor Wooten e a fluência da fala. improvisamos textos falados durante toda a vida, diante de uma série de situações. quer dizer que as composições orais são tão conhecidas por nós que não mais as pensamos diante das situações ordinárias que nos rodeiam. essa segunda natureza custou muitos anos de prática ativa e passiva do idioma, de vivência em um meio propício, e de domínio de toda uma aparelhagem muscular responsável, entre outras coisas, pela articulação de entonações, fonemas, palavras, frases e discursos. a idéia é o núcleo que rege o caminho que o indivíduo realiza para elaborar o seu improviso, e improvisos mais sofisticados requerem um uso mais intenso dessa aparelhagem.

como uma aproximação grosseira, a improvisação musical deve apresentar algumas características parecidas com essas algumas citadas acima para a oralidade. para um instrumento musical como o piano, a aparelhagem básica pode ser encarada como sendo o conjunto de alavancas ósseas, que vão desde os ombros até as últimas falanges dos dedos. o domínio desse aparelho é necessário para poder articular notas, passagens e frases. mas isso é apenas o começo dos problemas improvisativos. o que talvez mais dificulte a improvisação musical seja o forte vínculo da ação coordenada com o tempo, que é um elemento de muito menor importância na oralidade ordinária (ou seja, não envolvendo aspectos temporais como nas trovas gaudérias, no rap e nos trava-línguas).

no caso do piano, existem livros como o Jazz Piano Book de Mark Levine que recomendam fortemente que o músico desenvolva o hábito de estudar tudo em todas as tonalidades. logo, o trabalho do músico é aumentado em 12 vezes, principalmente no caso do piano, onde cada tonalidade tem a sua geografia característica, o que eventualmente deixa de ser um problema em alguns instrumentos como no violão (embora o violão apresente muitos outros problemas inexistentes no piano, como a exclusividade dos acordes abertos, com cordas soltas). a relevância de conhecer todas as tonalidade no piano vem à tona no momento em que a harmonia de uma música deixa de ser representada por cifras definidas para uma dada tonalidade (Dm7, G7, C7M) para ser representada apenas pelos graus diatônicos (IIm7, V7, I7M), que são de uma generalidade notacional maior. não falei sequer em casos de mudança de tonalidade na música, modalismo etc, mas a idéia continua a mesma. no momento, ignoro por completo o valor de se ter esse domínio pois não o tenho. quero crer que ele favoreça a improvisação musical sob certo aspecto.

fora do contexto da improvisação, é oportuno frisar que existem exemplos de indivíduos que, mesmo não possuindo nenhum domínio específico das aparelhagens tradicionais (alavancas ósseas para o piano e para a bateria por exemplo), têm idéias musicais absolutamente concisas. o que eles não têm é meios concretos de expressá-las. com o advento de softwares sintetizadores como Encore, Finale, Cakewalk, Reason etc, indivíduos como Lasse Gjertsen puderam se expressar sem ter o domínio tradicional da aparelhagem básica responsável pelo movimento que transformaria a sua idéia em música. o seu famoso clipe chamado Amateur comprova isso.

esse inesgotável assunto terá continuação.

24.11.08

ensaios para um novo mundo (7)

segunda-feira, 16:25 – 17:31

vai

a confrontação direta das nossas idéias e competências com o resto do mundo é um processo geralmente violento. não é fácil transcrever as idéias musicais do cérebro para um papel vazio. o ato é simples, mas o processo é conflituoso. é só nesse momento que as hesitações aparecem, traiçoeiras. por conta disso, muitos projetos não saem do cérebro, e outros tantos que tiveram começo são engavetados. o ponto final está infinitamente longe.

passamos a vida inteira enganando a nós mesmos. as piores peças que aplicamo-nos são tão análogas quanto esconder um elefante sob o carpete. pequenos atos e decisões que conscientemente sabemos que têm por fim evitar uma confrontação direta, última e desgastante, com os fantasmas que mais profundamente assombram a alma do indíviduo, perseguindo-o até o final de sua existência. acredito não haver remédio contra eles, embora possamos sobreviver ao convívio mútuo com a determinação de uma mão fechada.

evidências de que essas enganações próprias, conscientes e quiçá propositais existem enumero muitas. já na época de graduação em física, todos os resultados ruins em avaliações podiam ter sido previstos. quando descobri a clarividência, deixei de comparecer a muitas provas por já saber o que ia acontecer, ou melhor, o que já havia acontecido: eu havia enganado a mim mesmo muito antes da avaliação, estudando coisas irrelevantes para não confrontar-me com o conteúdo fatídico, que revelaria a minha ignorância total e absoluta.

isso posto, hic et nunc sou conduzido à conclusão que a minha autocrítica atingiu o nível da enganação própria, desvirtuando a sua função original de ponderação em detrimento de uma nova função, a viciosa de evitar a confrontação.

reconheço agora que não posso redigir mais no momento sobre o tema.

17.9.08

ensaios para um novo mundo (6)

quarta-feira, 21:35 – 22:17

thelonious

os sonhos revelam o que somos de uma maneira deveras sutil. e se pudermos lembrar deles e lê-los corretamente, teremos em mãos chaves para abrir alguns dos muitos cadeados que confinam nossos medos, fobias e horrores mais viscerais.

os sonhos de perseguição que eu tinha alguns anos atrás, e que nunca descobri ao certo o motivo. talvez fosse uma projeção da auto-repressão na época, durante a qual o contato com a música fôra parco.

e mais tempo antes ainda, com o sonho do corredor. neste, tudo era cinza e claro, o teto era muito alto. uma porta reforçada de metal à minha esquerda tinha uma janelinha retangular pela qual se poderia ver o que há do outro lado, caso não houvesse o mais absoluto nada, a escuridão total. lacrimejo sempre que relembro essa parte.

ao alinhar a visão com o corredor, este deixa de ser o ambiente claustrofóbico hospitalar que era para se tornar um simples caminho de terra a céu aberto. poucos metros à frente, um portão velho ao estilo século XIX dava seqüência ao caminho, que de fato deixava de existir além desse portão. do outro lado não havia horizonte, somente um céu infinito com as cores outonais do pôr-do-sol. nessa época, ainda tirava muitas fotos com essas cores.

já na beira desse mundo etéreo, via-se abaixo um imenso redemoinho de nuvens com os mesmos tons alaranjados. seus movimentos de revolução imperceptíveis, tão assaz lentos. o sonho termina quando me vejo em queda livre eterna.

não tenho compreensão até hoje do que isso tudo significa. entretanto, poucos sonhos foram tão claros como o de ontem para hoje.

thelonious me diz:

existem coisas que ninguém pode ensiná-lo a fazer, como improvisação.

é inacreditável.

15.9.08

ensaios para um novo mundo (5)

segunda-feira, 21:09 – 21:26


para ler corretamente o poema da postagem anterior, a figura abaixo mostra com cores onde estão os acentos tônicos (em vermelho) e as elisões de vogais (em amarelo) que são contadas como uma sílaba só. quando sutilmente marcados os tempos primários (em itálico) com a voz, o leitor sentirá a sonoridade pretendida.

     3 4   1 2 3 4   1 2 3 4   1 2
     3 4   1 2 3 4   1 2 3 4   1 2_

_2 3 4   1 2 3 4   1
  2 3 4   1 2 3 4   1

etc.

poem

13.9.08

ensaios para um novo mundo (4)

sábado, 20:10 – 21:45

darkness

noite fria

cruzo as trevas em silêncio, com presteza
busco em torno alguma coisa radiante

além das luzes dos faróis
e vagalumes que não há

dessas casas por que passo vêm latidos
de seus cães intolerantes, enjaulados

os reflexos da elegia
que me conto todo dia

toda força e todo tempo prescindidos
do passado hoje vindicam os minutos

sonhos loucos e febris
intermináveis

sigo só em companhia resignada
a vereda obscura e torta, melancólica

a esperança que vislumbro
no escuro dessas ruas