sexta-feira, 21:18 – 22:38

quero crer que há um sem-número de acepções para o verbete
improvisação, passando tanto pela decrépita
gambiarra como pelo difícil ordenamento do difuso em tempo real.
já nos ensaios 2, mencionei Victor Wooten e a fluência da fala. improvisamos textos falados durante toda a vida, diante de uma série de situações. quer dizer que as composições orais são tão conhecidas por nós que não mais as pensamos diante das situações ordinárias que nos rodeiam. essa segunda natureza custou muitos anos de prática ativa e passiva do idioma, de vivência em um meio propício, e de domínio de toda uma aparelhagem muscular responsável, entre outras coisas, pela articulação de entonações, fonemas, palavras, frases e discursos. a idéia é o núcleo que rege o caminho que o indivíduo realiza para elaborar o seu improviso, e improvisos mais sofisticados requerem um uso mais intenso dessa aparelhagem.
como uma aproximação grosseira, a improvisação musical deve apresentar algumas características parecidas com essas algumas citadas acima para a oralidade. para um instrumento musical como o piano, a aparelhagem básica pode ser encarada como sendo o conjunto de alavancas ósseas, que vão desde os ombros até as últimas falanges dos dedos. o domínio desse aparelho é necessário para poder articular notas, passagens e frases. mas isso é apenas o começo dos problemas improvisativos. o que talvez mais dificulte a improvisação musical seja o forte vínculo da ação coordenada com o tempo, que é um elemento de muito menor importância na oralidade ordinária (ou seja, não envolvendo aspectos temporais como nas trovas gaudérias, no rap e nos trava-línguas).
no caso do piano, existem livros como o
Jazz Piano Book de Mark Levine que recomendam fortemente que o músico desenvolva o hábito de estudar tudo em todas as tonalidades. logo, o trabalho do músico é aumentado em 12 vezes, principalmente no caso do piano, onde cada tonalidade tem a sua geografia característica, o que eventualmente deixa de ser um problema em alguns instrumentos como no violão (embora o violão apresente muitos outros problemas inexistentes no piano, como a exclusividade dos acordes abertos, com cordas soltas). a relevância de conhecer todas as tonalidade no piano vem à tona no momento em que a harmonia de uma música deixa de ser representada por cifras definidas para uma dada tonalidade (Dm7, G7, C7M) para ser representada apenas pelos graus diatônicos (IIm7, V7, I7M), que são de uma generalidade notacional maior. não falei sequer em casos de mudança de tonalidade na música, modalismo etc, mas a idéia continua a mesma. no momento, ignoro por completo o valor de se ter esse domínio pois não o tenho. quero crer que ele favoreça a improvisação musical sob certo aspecto.
fora do contexto da improvisação, é oportuno frisar que existem exemplos de indivíduos que, mesmo não possuindo nenhum domínio específico das aparelhagens tradicionais (alavancas ósseas para o piano e para a bateria por exemplo), têm idéias musicais absolutamente concisas. o que eles não têm é meios concretos de expressá-las. com o advento de softwares sintetizadores como Encore, Finale, Cakewalk, Reason etc, indivíduos como Lasse Gjertsen puderam se expressar sem ter o domínio tradicional da aparelhagem básica responsável pelo movimento que transformaria a sua idéia em música. o seu famoso clipe chamado
Amateur comprova isso.
esse inesgotável assunto terá continuação.